Bem, eu estou atrasado pacas em escrever para o site e agora me pediram para escrever os meus relatos para o Jornal Planeta Terra Adventure, oportunidade que agradeço, então vamos a isso e colocar a casa em ordem, semana que vem publico do Audax 400k de Balneário Camboriu.

 

A PROVA

 

Antes de mais nada, o que vem a ser o Flèche Velócio?

Segundo o site do Randonneurs Brasil, assim é descrito o evento:

 

A Flèche Vélocio foi criada em 1947. Depois dos brevets BRM e o PBP, é o evento mais antigo organizado pelo Audax Club Parisien.

Aqui no Brasil chamamos de Fleches Brasil, baseado na denominação dada pelo ACP sobre a Feche Nacionale. Esse evento baseia-se no regulamento da Flèche Velócio.

A Flèche Vélocio é um passeio em equipe, que acontece na França, de duração de 24 horas, usualmente realizada no fim de semana da Páscoa. As equipes consistem de 3 a 5 bicicletas e todos os membros devem andar juntos. O número de equipes é ilimitado. Cada equipe escolhe o seu próprio ponto de partida e sua própria rota. Todas as equipes começam na sexta-feira ou na madrugada de sábado, seguindo para o ponto de concentração (chegada), na região de Provence. Pelo menos 360 quilômetros devem ser cobertos em 24 horas, mas o objetivo é cobrir a maior distância possível. Eventualmente, no Domingo de Páscoa de manhã, todas as equipes se encontram na chegada, para conversar e comemorar juntos.

Ao treinar juntos, os membros da equipe constroem um forte espírito de amizade. Reunindo-se e andando juntos, aprendem a seguir em um mesmo ritmo, compartilhando o mesmo objetivo: fazer um trabalho de equipe. Este é o espírito do Flèche Vélocio. Atingindo ou não um alto desempenho, a atmosfera de um passeio em equipe, de 24 horas, é uma experiência absolutamente excepcional e uma boa oportunidade para fortalecer as relações entre os membros do clube.

Este último parágrafo, descreve na essência, o que vem a ser uma equipe a participar desse evento, um objetivo em comum, espirito de amizade e trabalho de equipe.

 

O INICIO DE TUDO, O SURGIMENTO DA EQUIPE.

 

Tudo começou numa conversa com a Patricia de Floripa, já Super Randonneur(atleta que completou uma série do Audax, 200, 300, 400, e 600km), falando sobre o evento e sobre ter equipe, começamos a formar uma, que num primeiro momento seria composta por mim, único ainda sem ser Super Randonneur, a Patricia, o Maury, também de Floripa e o Anderson, também manézinho da ilha, sendo eu o único de fora.

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Como a Patricia não quis ser a Capitã, tal coube ao Anderson. No decorrer das conversas, entrou na equipe o quinto elemento, o Fabiano de Curitiba, com o qual havia pedalando no 200k de Rio do Sul, rota feita(por mim), e coitado do resto da equipe que resolveu seguir um louco, foi feita a inscrição, providenciadas camisas personalizadas, que foram criadas e fabricadas pelos meus parceiros da FURBO Camisas de Ciclismo, Motocross e Esportes em geral, que criaram e fabricaram a mesma em tempo recorde.

Nos últimos dias pré prova o capitão resolve abandonar o barco por motivos nobres e sobrou para a relutante Patricia o papel de líder. Iriamos então em quatro para a aventura, mas nos últimos minutos do segundo tempo, entra na equipe o Fabio de Maringá, conhecido já de outros eventos, ciclista e triatleta, que mostrou ser um grande acréscimo a louca trupe.

O nome da equipe se originou da brincadeira da Patrícia em me chamar de Ninja.

O DIA ANTERIOR, QUINTA-FEIRA.

 

A maioria das pessoas em eventos desse tipo, já tira o dia anterior de folga para organizar as coisas, mas como eu não tenho tempo para isso, resolvi fazer jus a fama de Ninja(nome criado pela Patricia) e fazer tudo nos últimos momentos, a camisa ficou pronta apenas no dia anterior, mas conseguimos incluir a camisa personalizada pro último membro, então, comecei o dia, indo de Blumenau a Benedito Novo para pegar as camisas, almocei em casa, aguardando o telefonema da Happy Bike para retirar a bike e seguir a Floripa.

As 14:00 horas, veio o telefonema e sai batido, passei correndo na loja, bike encima do carro, bora pra Capital, como a nossa saída de van seria no norte da Ilha, tinha quase 200km pela frente, o que otei pra baixo em tempo recorde.

Chegando lá, apenas tirei as coisas do carro, encontrei a Patricia, o Maury e o Fabiano que havia vindo de Curitiba com a família e seguimos viagem, o que por si só foi uma aventura, pois levamos 2 horas para sair de Floripa e cruzar Santo Amaro da Imperatriz por causa do grande movimento.

Como a ida seria no mesmo caminho da volta, fui com o gps ligado para averiguar os detalhes da rota, pois ninguém nunca havia pedalado esse roteiro, quando chegamos em Alfredo Wagner e paramos para jantar, já queriam me mandar matar, pois para chegar lá, viram que descemos uma serra de 20km, e que teríamos de subir na volta e na madrugada.

Mas enfim, de lá para frente a viagem foi tranquila, todos conseguiram dormir um pouco e chegamos no Hotel Ceni no Centro de Campos Novos por volta de 01:00 da manhã, sendo que o Hotel seria o nosso ponto de partida oficial, todos foram direto aos seus quartos para dormir enquanto eu ainda fiquei aprendendo a usar o gps, visto que tinha trocado no dia porque o anterior morreu.

Pelas 2 escutei o Fabio chegando de Maringa com o Adilson que seria nosso Staff oficial, ainda sai para cumprimenta-los, conseguindo finalmente dormir apenas por volta das 03:00 horas e por volta das 06:00 já estava acordado de novo, com a maldita ansiedade pré prova.

 

O DIA D

 

Como estava desde cedo na agonia, levantei, tomei um banho bem demorado, fui a farmácia para abastecer o kit emergencial(antisséptico, dorflex, aspirina…etc), voltei ao hotel, deixei a bike pronta e fui tomar café, onde todos os demais também já estavam.

Café tomado, carregamos as tralhas na caminhonete do Adilson, pagamos o hotel e aproveitamos para pegar o cupom fiscal para comprovar a hora de saída, demos umas alongadas, atravessamos a rua para tirar uma foto na praça principal da cidade e pontualmente as 10:00 saímos em direção a BR 282, que seria nossa estrada por aproximadamente 255 quilometros.

Chegando na rodovia, percebemos um mundo novo ao qual não estávamos acostumados, uma rodovia razoavelmente bem conservada, acostamentos largos e limpos, o que se prolongaria até a cidade de Lages, 120kms depois e motoristas muito educados e respeitadores, avisavam de longe a chegada e abriam bem mais do que os 1,5 metros exigidos no CTB, e digo que passamos todo o caminho até o final, sem tomar uma única fina ou fechada.

Passado o trevo, onde se fossemos reto, estaríamos na BR470 a caminho de Blumenau, entramos a direita no trevo seguindo para nosso primeiro PC que seria no Auto Posto Líder, de bandeira ALE, na cidade de São José do Cerrito, com aproximadamente 80kms. Antes de chegar no PC1 a primeira baixa, um pneu furado do Fabiano, mas trocado rapidamente pelo Fábio que foi eleito o trocador oficial da equipe. O posto do PC1 se mostrou uma decepção, o lugar é um pardieiro, pequeno, sujo, o banheiro em condições lamentáveis, a salvação foi nosso Staff Adilson, que havia comprado algumas marmitas com carne e outros quitutes, comemos um pouco, abastecemos de água e seguimos viagem para o PC2.

O PC2 era no Posto Ampessan(Ipiranga) no quilometro 120 da nossa planilha, bem no trevo da BR116. Ali seria uma parada mais demorada, para comer melhor, ir ao banheiro e dar uma relaxada, pois logo escureceria e o próximo PC era 86kms a frente em terreno desconhecido e não sabíamos exatamente quanto tempo levaríamos com precisão.

Alimentados e descansados, quando fui engatar minha bolsa de canote, vi que tava com pneu arriado(primeiro em minha carreira de Audax em 2 anos), que novamente foi trocado rapidamente pelo Fabio. Nos despedimos do Adilson e pegamos na estrada. Uns 2km pra frente, vimos que a Patricia e o Fabiano estavam para trás e ai fomos informados da primeira baixa, o Fabiano havia decidido abortar a viagem, voltando de ônibus para Floripa. Equipe restante reunida, fomos socando a bota em direção ao horizonte, brindados por um lindo por do sol e com a lua cheia já alta no horizonte.

Uns 20km fora de Lages, paramos para tirar fotos da vista da lua, colocar os corta ventos, pois o clima demonstrava que ficaria frio e fomos seguindo num ritmo razoavelmente forte para elevar um pouco a média geral e ficar com tempo de folga, como não conhecíamos o caminho, não sabíamos o que encontraríamos e bem antes de chegar no PC3, fomos brindados por uma lanchonete bem ajeitada no acesso a Bocaína do Sul, onde comemos um pouco, tomamos um café quente, aproveitamos o WIFI free para dar aquela atualizada nas redes sociais e tocamos adiante.

 

A NOITE E MADRUGADA

 

O PC3 era próximo ao trevo de acesso a Urubici com 206km rodados, numa lanchonete que supostamente estaria aberta até as 23 horas, chegamos pouco antes das 22 horas e estava tudo fechado, fomos salvos pelo posto ao lado que tinha alguns salgadinhos e uma máquina de café decente. Ali o clima começou a se mostrar e nos forçou a colocar máscaras, manguitos, pernitos, corta vento e segunda pele, o gps já marcando 10 graus, que viriam a cair até 8 antes de amanhecer.

Saindo dali a próxima parada seria no Paradão Batistella, no pé da temida serra que haviamos visto na ida, ali paramos mais tempo, comemos bem, abastecemos de água, forramos as roupas com jornal para nos aquecer e seguimos viagem, nos preparando para pedalar os temíveis 20km de serra acima até Rancho Queimado e lá fomos nós, girando sem parar até que 2 horas e pouco depois finalmente vimos a entrada de Rancho Queimado, dali para frente são duas descidas razoavelmente longas passando por Águas Mornas para chegar em Santo Amaro. No meio de uma dessas descidas, veio o temível sono, que me fez descer longo trecho com freio puxado, tanto que o restante da equipe, vindo que eu não chegava, pararam  acabamos descansando e cochilando por alguns minutos usando uma mureta como cama e travesseiro, sob uma temperatura baixa e cerração pesada, típico cerração de encontro do ar quente do litoral com o ar frio da serra, que ali no ponto máximo chegava a mais de 1000 metros de altitude, onde quiseram me matar quando falei que odeio subidas.

Finalmente o dia começava a raiar ensolarado e chegávamos em Santo Amaro da Imperatriz que era o nosso último PC antes da chegada e tínhamos em torno de 2 horas para chegar no Trapiche da Beira Mar Norte e assim forçamos um pouco até chegar na Marginal da BR101 em Palhoça e depois fomos apenas girando com tempo de sobra, entrando na ilha as 07:20 e teríamos que esperar até as 08:00 para seguir viagem, pois o regulamento manda que nas últimas duas horas, deve-se pedalar sem parar pelo menos 25 quilometros.

Ligamos para a organização avisando nossa posição e as 08:00 em ponto começamos o martirio de fazer os 25kms restantes, quase nem pedalando as bikes, martírio que só aumentava quando chegamos no trecho da SC401 onde os triatletas treinavam, passando por nós a mais de 30km/h.

Finalmente, faltando uns 6 minutos para as 10:00 chegavamos ao trevo de acesso a Cachoeira do Bom Jesus e aos metros finais da prova. Essa chegada é uma sensação única no Audax, todos independente de tempos e de rotas, chegando juntos ao mesmo tempo a emoção que nos toma é algo épico que faz aflorar lágrimas aos olhos mesmo dos mais embrutecidos.

Chegamos todos, sem maiores problemas, fomos todos dar um jeito de tomar um banho e tirar a craca para voltar ao local de chegada para o churrasco de confraternização, pegar as medalhas e certificados e poder finalmente voltar para a família que estava em casa aguardando para a Páscoa.

De uma forma breve e resumida, foi uma prova fantástica, com muito companheirismo, muitas risadas e muito chá de selim.

Agradeço aos Fabio pelo serviço de trocas de pneus, ao Adilson pelo excelente trabalho feito de forma tão abnegada como nosso apoio e aos demais membros da equipe que toparam a roubada que eu inventei e agradeço aos meus apoiadores, Furbo, Happy Bike, Impacto Fitness, Cúpula Criativa, Saúde em Saquinhos e BrasilGPS de Garopaba que me fornece o Spot Gen3, rastreador pessoal que permite o rastreamento em tempo real pela web.

As fotos da maluquice estão aqui: http://crazybiker.com.br/?page_id=1268

Abraços ciclísticos para todos.

 

P.s.: A rota pode ser baixada no: http://www.gpsies.com/map.do?fileId=docmgcyihioflzlc

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