O segundo dia da epopéia maluca.

Como bom pseudo aventureiro e como a internet e a tv inexistentes me fizeram dormir mais cedo que o habitual, 03:40 já estava acordado, pilhado ao máximo, tentei dormir mais um pouco, mas não tinha jeito, antes das 05:00 já estava tomando o lauto café da manhã que faz parte da diária(pão de queijo, misto quente e um café), descansei mais um pouco, empacotei as coisas e as 06:00 já estava tomando a segunda rodada do café, abastecendo de água e me preparando psicologicamente pro que eu ainda não sabia, mas que seria um dos pedais mais duros que eu já fiz, não pela distância em si, mas pelo relevo e pela alta temperatura em boa parte do dia.

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As 06:45, eu estava pegando a estrada novamente, segui por um pequeno trecho na 282 e entrei numa estrada secundária a direita, que faz parte da antiga BR 282, na localidade de São Leonardo, seguindo alguns km serra acima por uma bucólica região rural tendo apenas algumas poucas casas e logo após entrava no asfalto, o qual seguiria por uns 4k, para sair da 282 próximo a placa da divisa dos município de Alfredo Wagner e Rancho Queimado e iniciar o caminho que pela placa seria de 28k até o centro de Leoberto Leal.

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Algumas centenas de metros a frente já se revelava o que seria esse segundo dia, muitas estradas ruins, muita pedra solta e muitas, mas muitas subidas, os primeiros 12k, são de muitas subidas e curtas descidas, atravessando uma gigantesca região de reflorestamento de pinus, algumas raras propriedades com alguma pecuária a margem da estrada, região tão deserta que em uma das propriedades um considerável rebanho de ovinos pastava solto a beira da estrada.

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Alguns km antes de chegar no Mirante da Serra dos Tropeiros, com quase 1100 metros de altitude, revelou-se o porque das péssimas condições da estrada, o corte e carregamento de pinus, com os caminhões e tratores, acrescido da chuva e tinha-se a estrada infernal.

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Chegando no mirante, algumas fotos e um pouco de apreciação da natureza e fui descer a sinistra Serra dos Tropeiros, num mero trecho de 1750 metros, a estrada tem um desnível negativo de quase 400 metros, muito íngreme.

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Olhando de cima parece que depois da serra seria tranquilos e infindáveis quilômetros de descidas e planícies, mas, ledo engano, ou você esta subindo ou andando num falso plano, poucas descidas mesmo, sendo que cheguei no centro de Leoberto Leal, com mais ou menos 39kms pedalados e já era 11:00, com o sol já generosamente no lombo, me obrigando a entrar na farmácia local e comprar protetor solar, sábia decisão.

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Acabei encontrando um satisfatório sanduiche pro almoço na Pizzaria do Lorinho, o tal Lorinho que não é loiro, indagando para onde eu iria, me sugeriu um atalho que segundo ele me faria economizar vários kms em direção a Nova Trento e me pouparia de subir uma longa serra, agradeci o conselho e segui viagem pelo caminho previamente planejado, mas vários kms a frente entendi o porque do temor pela “longa serra”, a miserável subida não é extremamente inclinada, mas subir a maldita, com o sol do meio dia no lombo, o gps marcando acima de 40º, não é uma experiência agradável, tentava pedalar, mas o calor trazia uma sensação insuportável, sem uma sombra decente, é sol na moringa por quase 8 km morro acima sem aliviar. A desgraçada subida é tão miserável e desconhecida que no Strava, só eu e mais 4 viventes temos nossas tentativas registradas.

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No meio dessa subida a água já acabou e quando estava quase no topo, uma providencial choupana com alguns humanos e seus cachorros(ou seria o contrário) na porta, em forçaram a mendigar água, o que foi a salvação, caramanholas cheias de água gelada tinha mais alguns kms de estrada ruim para chegar na localidade de Boiteuxburgo, já na cidade de Major Gercino, onde um posto de gasolina no meio do nada ao lado de um deserta igreja é um oásis, mas sem comidas substancial, apenas salgadinhos e refrigerante, o que tinha de servir até a próxima parada na localidade de Pinheiral, mais 15km a frente.

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Parada rápida, segui viagem, pois já eram 15:00 e eu só havia feito 57km, segui, fugindo da chuva, quase zerando o caminho até o Pinheiral, onde eu tinha uma séria decisão a tomar, pegar a estrada que me foi sugerida por várias pessoas no caminho e pelo Éder, que é a Estrada da Valsugana, que não teria quase nada de subidas e me faria chegar em torno de 30km mais cedo em Nova Trento, mas eu fecharia apenas 185kms nesse dia, o que seria aconselhável pelo adiantado da hora, ou seguir para a cidade de Major Gercino, mas a sensatez num pedal longo, para poupar sofrimento, não é minha marca registrada, peguei o caminho para o centro de Major Gercino, que seriam vários kms de descidas, lembrando muito o caminho do Faxinal do Bepe, nada demais, mas andei em torno de 20km sob chuva torrencial, que chegava a doer na pele, chegando na cidade com 99km rodados e era praticamente 19:00, teria daquele ponto em diante mais 119kms a rodar.

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Passei uma água na bike para tirar a lama e areia acumulada, lubrifiquei a corrente e toquei o pé para aproveitar o pouco de luz do dia que ainda tinha, rapidamente passando por São João Batista, mas logo escurecia e atravessei o trevo em direção a Claraíba já no escuro e a partir dali era o momento de pensar no tal pedal estilo Jack Bauer(by PedaladasMTB) de 24 horas pelo Vale Europeu, de questionar repetidamente a sanidade mental e me arrastando pelo asfalto escuro e sem acostamento, pouco mais de 10km até o primeiro posto de gasolina e sinais de civilização, mas muito perigoso, parei num posto para comer e tomar o resto de café que ainda tinham e dar noticias a família, cogitando brevemente a ideia de dormir ao chegar em Brusque, mas a ideia passou rápido.

Segui meu caminho em direção a Brusque, sendo alvo de pelo menos 3 motoristas FDP, um inclusive fazendo fina pela contramão e na ultima descida para Brusque fui alcançado por uma miraculosa guarnição da PM, e os solícitos brigadianos me escoltaram até o final da descida e inicio da civilização brusquense e assim fui me arrastando pela lúgubre beira rio de Brusque, que faria os mais incautos saírem correndo de medo, pois as criaturas mais amistosas são as capivaras e meia noite estava fazendo um lanche no posto saindo da cidade depois em Gaspar um cachorro quente prensado e assim andava 10k e parava para descansar, para por fim chegar em casa as 05:00 de sábado, dia 24/12, 22 horas e 15 minutos depois de ter saído em Alfredo Wagner, semi morto, mas com o sentimento de dever cumprido que só outro ciclista de longa distancia consegue compreender.

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CONCLUSÃO DA MALUQUICE.

432kms pedalados, em torno de um terço em percurso desconhecido para mim, fechando mais uma parte do mapa catarinense. Foi meu auto presente de Natal e diria que melhor que qualquer outro presente, custo mínimo, se resumindo a R$60,00 de hotel, um protetor solar, alguns lanches a beira da estrada o que somado não chegou a R$200,00, mas com um saldo pessoal incalculável. Sobre as dificuldades do segundo dia, faria tudo de novo, foi uma decisão fácil escolher o caminho mais longo e duro, só pelo gosto de ultrapassar 200k no segundo dia também. Foi tão bom que já penso em algum roteiro idêntico para o meio do ano. No mais, espero que curtam o relato e comentem, os roteiro do segundo dia no Strava e o caminho todo no Wikiloc seguem abaixo após a avaliação do gps, assim como as fotos do segundo dia. Abraços e até a próxima.

AVALIAÇÃO DO GPS

Alguns dias antes de sair para a viagem, peguei com o amigo Luiz Junior da Loja Bike On do Norte Shopping de Blumenau(47-3232-1415), um GPS da marca Atrio, modelo Iron, que anda sendo muito falado no meio ciclístico, pelo baixo preço.

Retirei ele da loja fechado na caixa para ter a experiência mais real possível sobre o mesmo, usei ele em alguns pedais nas redondezas de casa para me acostumar, como mostra a foto abaixo, tem uma tela simples, bem iluminada, a iluminação acende automaticamente de noite.

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Ele tem 3 telas pré configuradas, sendo que uma mostra velocidade atual, hora do dia, distância da atividade atual e altimetria, a segunda mostra velocidade média, tempo da atividade atual, odômetro total e graduação de inclinação do terreno a terceira mostra velocidade máxima, data, temperatura e gasto de calorias. E no canto superior direito existe um canto fixo, que mostra a carga da bateria, um sinal de + dentro de um círculo que quando esta piscando significa que o aparelho esta gravando e um simbolo de um satélite que mostra a recepção de sinal gps. Na parte inferior tem dois botões, o primeiro que liga/desliga o aparelho e inicia e para a atividade e o segundo que alterna entre as telas.

Minha opinião sobre o equipamento, quanto as telas eu acharia mais interessante no lugar do gasto calórico, a inclusão da altimetria acumulada na atividade, no mais entendo as telas bem distribuídas e de fácil entendimento para qualquer um. Dentro da caixa vem apenas o aparelho com um cabo USB para conectar o gps no computador, sem carregador, o que deixa um pouco duvidoso sobre carregamento, mas a empresa pela fanpage (https://www.facebook.com/atrioesportes), depois que indaguei, responderam rapidamente me dizendo que pode ser usado um carregador de celular(5v) para carregar o aparelho.

A sincronização com o computador é simples e funcional, não deixando a desejar com relação a aparelhos de outras marcas.

A precisão não deixa a desejar para outros equipamentos em distância, apenas a altimetria tem uma ligeira diferença com relação a realidade, comparado com outros equipamentos e com as cartas topográficas, mostra-se uma diferença de aproximadamente 20 a 25 metros, mas como não vamos pousar nenhum avião com base nesses dados, não traz problemas de ordem prática.

O aspecto mais positivo além do preço é a duração da bateria, usei ele na ida e em parte da volta e mesmo com a luz de fundo acesa por algo em torno de 3 horas a bateria durou 28 horas e 30 minutos, o que é uma excelente notícia para quem curte atividades longas, cobrindo por exemplo a duração de um Audax 400k com folga.

No mais,usei ele até o momento por 768km, sem apresentar problemas, a bateria é semi eterna, o preço médio de mercado fica na faixa entre R$350,00 e R$400,00 o que é um valor muito honesto, levando em conta que o concorrente mais similar é da Cateye que não sai por menos de R$700,00, então, vale muito a pena a aquisição.

Quero agradecer ao Luiz Junior pela oportunidade de testar o aparelho e ao pessoal da Atrio pelo excelente atendimento ao consumidor via Facebook, algo que deveria ser copiado pelos concorrentes que tanto deixam a desejar no pós venda de seus produtos.

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12 thoughts on “O Pedal do Solstício, Dia 2, a volta – Alfredo Wagner a Blumenau, via Leoberto Leal e Major Gercino + avaliação do GPS.

  • janeiro 8, 2017 at 1:54 pm
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    Excelente !

    Muito bom bom Nésio ! Está de parabéns ! Gostei muito de tudo, aventura, relato, fotos, percurso !

    Parabéns amigão ! Obrigado por compartilhar !

    Forte Abraço ! Até um dia em SC ou aqui em Ita – SP … hehe

    • janeiro 8, 2017 at 1:59 pm
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      Obrigado amigo.

  • janeiro 8, 2017 at 12:48 am
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    Muito bom, Eleonesio, parabéns rpz! Curti mto o seu relato!
    Pena que o GPS Átrio usa bateria interna ‘soldada’ , e não tem como por novos itens via Bluetooth ou ANT+, como Cadência. Se eu for gastar R$400 num GPS, preferirei gastar R$800 ou um pouco mais num Garmin Edge usado (desde que dê para carregar enquanto pedala ou use pilha externa).

    A propósito, o Garmin Átrio possibilita deixar carregando num battery pack durante o pedal, enquanto ele fica ligado e registrando a distância? Abrs!

    • janeiro 8, 2017 at 1:04 pm
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      Grato pelas palavras. Pode usar powerbank sim, mas de boas, para um Audax 400 por exemplo tu ta garantido. Quanto ao Garmin, ai que esta minha birra, pelo preço do Atrio ele vale a pena, ele é preciso, simples de usar e creio eu que sirva como um teste de mercado, acredito que não demore para a marca lançar um modelo que aceite bluetooth e ant+. Eu pesquisei e o modelo mais semelhante a esse de outra marca é um Cateye com 850,00, mas que a bateria segundo comentários não dura a metade.

  • janeiro 3, 2017 at 11:42 pm
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    Que coisa linda esse relato Brüder… as fotos então, nem se fala!!! Conheço a região e sei o quanto é duro…. mas também sei que foi recompensador ter esse desafio com o visual que se apresentou no percurso para você… que continue assim com esse espirito desbravador e que venha outros desafios pela frente…. qualquer coisa estamos as ordens. Auf Wiedersehn weltmeister.

    • janeiro 4, 2017 at 12:10 am
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      Danke bruder. Valeu pelos comentários positivos. Logo logo sai outra ideia maluca da cabeça.

  • janeiro 3, 2017 at 6:10 pm
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    PARABÉNS!!!!
    Realmente uma aventura e tanto… Isso é para os bravos.
    Chego a conclusão de que nem tudo depende de tempo, mas sim, de atitude!!
    Agradeço por esse belo exemplo . Até a próxima aventura…

    • janeiro 3, 2017 at 8:47 pm
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      Grato pelas palavras bike amigo. Realmente, tomar a atitude de ir e fazer é meio caminho andado, o resto é um pouco de treino e o psicológico. Espero esse ano fazer um pedal longo inédito todo mês. Até a próxima.

  • janeiro 3, 2017 at 6:02 pm
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    Parabéns Eleonésio, fiquei lendo o relato e pensando se um dia chego nesse nível, mas os posts são inspiradores :)

    Já fizesse o circuito Vale Europeu?

    • janeiro 3, 2017 at 8:49 pm
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      Boa tarde amigo. Com certeza chega lá sim, não é só uma questão de forma física, se fosse assim, eu estaria ferrado atualmente, parte é a vontade de ir fazer e outra boa parte é treino mental, estar com o psicológico em dia. O vale europeu eu já fiz sim, só nunca com o passaporte e tal, mas estou tramando para no inverno desse ano fazer ele numa pedalada, sair pedalando num dia em Timbó e sem parar para dormir, finalizar ele. Abraços.

  • janeiro 3, 2017 at 4:13 pm
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    Cara…sem palavras…vc concluiu um grande e novo desafio ciclistico (e já foram muitos) E ainda tem força de vontade e disposição pra fazer muito mais!
    Obrigado por compartilhar conosco e nunca perca essa força pois ela inspira e ajuda muita gente, inclusive eu… Parabéns grande Mestre.

    • janeiro 3, 2017 at 4:17 pm
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      Muito obrigado meu amigo. Vai fazer a série 2017??

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